Tuesday, June 01, 2004

Histórias da vida real - Episódio 1 de 4

Diário de bordo: 24 a 30 de Maio de 2004.

A semana passada foi bem movimentada. É tanta coisa pra contar que resolvi fazer que nem o Jack: "- Vamos por partes". A partir de hoje, inicio uma série de 4 episódios para contar tudo sem cansar os olhos do raro leitor.

Nesse primeiro episódio veja que, hoje em dia, futebol não é somente "coisa de menino", mas olhos femininos são bem menos emotivos nessas ocasiões.


"O futebol é uma caixinha de surpresas"

Na semana passada, quarta-feira, fui ao Estádio Castelão assistir ao jogo Ceará x Brasiliense pelo Campeonato Brasileiro - Série B. Lembrei de quando eu era criança e meu pai levava a criançada toda da família para assistir aos jogos do também alvinegro ABC de Natal-RN. Mas em Fortaleza foi a minha primeira vez.

Futebol para os torcedores que vão ao estádio pode ser comparado, para mim, como se houvesse um show de rock toda semana. Aquela multidão se reunindo, convergindo para um único lugar, cada pessoa ligada à outra por um ponto em comum: ver o time do coração ganhar a partida, da mesma forma como um rockeiro quer ver sua banda preferida dar um show espetacular.

O Castelão parecia mesmo uma festa! A torcida do "Vovô" - alcunha dada ao time pelo fato de ser o clube mais antigo do Ceará - compareceu em peso. Fala-se da bilheteria recorde dos jogos da Série B: 33 mil pessoas, todos torcedores do Ceará. Nenhum do Brasiliense. E eu lá no meio da muvuca acompanhada do David e do Raphael.

O Brasiliense era o 2º colocado. O Ceará, o 4º. Mas a diferença de pontos era tão pouca que, quem ganhasse assumiria a primeira posição do campeonato. O Ceará jogava em casa e vinha de uma vitória de virada contra o Náutico em plena Recife. Era o franco favorito para ganhar a partida.

E, realmente, não saía do ataque. Mas o Brasiliense também não saía da defesa. O juiz, coitado, levou tanto palavrão por cada falta que deixava de marcar a favor do time da casa... Mas, parecia mesmo de propósito, era só alguém do Brasiliense pegar na bola, e um jogador do Ceará chegar perto, e o juiz apitava! E só assim, depois de jogadas paradas, o Brasiliense desenvolvia os passes.

Porém, como diziam os espectadores, "O Ceará tem goleiro!" Nas poucas vezes em que foi ameaçado, o goleiro do "Vovô" estava lá defendendo, e bem! Mas gol, que é bom, nada! Tudo cogitava para que o Ceará ganhasse. A festa da torcida estava bonita. Cada lance bem feito pelo time era aplaudido e comemorado.

Mas os torcedores também se enraiveciam e xingavam a cada erro visto. Era um paradoxo: louvavam, em um dado momento, um jogador que, minutos depois seria chamado de "cego!", "surdo!", "burro!" (isso, para não citar os palavrões!).

E o jogo todo permaneceu assim. Até que, no meio do 2º tempo, quase fizemos um gol. Houve quem viu a bola entrar e até comemorou. Mas foi só um golpe de vista. A bola foi para a linha de fundo! à torcida, restou aplaudir novamente o quase-gol.

Logo em seguida o juiz finalmente marca uma falta para o Ceará. E dentro da área! É pênalti!! A torcida já comemorava, nem precisava bater. Todos já tinham certeza do placar 1 x 0 e antecipavam a festa que ia ser logo após. Os torcedores estavam todos de pé, esperando o apito.

Eu nem consegui ver o lance, diante de tantos marmanjos à minha frente, impedindo minha visão. De onde eu estava, podia ver o goleiro do Ceará. Fixei-o com o olhar: dependendo da reação dele, seria gol, ou não. E o que vi foi ele pôr as mãos na nuca, e baixar a cabeça, decepcionado. O Ceará acabava de perder a chance de vitória. Todos se sentaram calados, desolados...

Foi aí onde observei a capacidade que os homens têm de se entristecerem, de emudecerem e se chatearem com algo... às vezes os achamos tão duros, incapazes de demonstrar o sentem e pensam. Mas ali no estádio, eles se tornam absurdamente transparentes. Descarregam lá todo o extremo de suas emoções: da euforia à decepção, da torcida ao desconsolo, da alegria à desanimação...

33 mil pessoas em silêncio, inclusive os jogadores. Dava para ouvir o pensamento em comum que ecoava no ar: "não é possível!"

Faltava pouco tempo para encerrar a partida... O jeito era segurar as pontas até o final. A rádio anunciava que, longe dali, em São Paulo, o Ituano ganhava de 2x1 do Fortaleza (arquiinimigo da torcida do "Vovô"). Servia de consolo o fato de empatar, enquanto o rival perdia.

E enquanto todos já se conformavam com o empate sem gols, e o pontinho importante a ser conquistado na tabela do campeonato, eis que o Brasiliense fez o seu gol...

"Quem não faz, leva!", é como dizem. Nessa hora, quem já estava desconsolado e decepcionado ficou tão triste que o "amor" transformou-se em "desprezo"... Muitos se levantaram e simplesmente foram embora, abandonando o time e o resto da partida.

Mas aqueles eram os últimos 2 minutos de jogo. Não havia tempo para mais nada. O juiz apitou e apontou o centro do campo, encerrando a partida. Final: Brasiliense (atual líder do campeonato) 1 x 0 Ceará (que depois dessa, caiu para o 6º lugar).

A volta pra casa foi desestimulante. Ouvi muitos dizerem que nunca mais viriam ao estádio, muitos culparam o técnico que escolheu um jogador que, até a partida anterior era reserva, para bater o pênalti. Outros disseram que o Brasiliense mereceu, afinal era mesmo melhor time. Outros diziam que o problema, mesmo, era torcer pelo Ceará. Nada de positivo. Apenas um comentarista na rádio chegou a dizer que o Ceará havia sido o ganhador moral do jogo, só faltou o gol... Mas isso não servia de consolo para ninguém...

E eu olhava para aquilo, meio sem entender... Afinal, tudo não passava de um jogo, um esporte, uma atividade de lazer, de entretenimento. O pessoal parecia levar muito a sério esse negócio!

Bom, mas eu devo ter sentido a mesma sensação que os homens têm quando não compreendem quando saímos de casa para comprar um sapato e voltamos com vestidos, blusas, bungingangas... Tudo, menos o tal sapato. Ora! Mas era uma liquidação, tava tão barato! Não podíamos perder...

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